setembro 02, 2009

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca.Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio. Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza.Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante.Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor.Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço.Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.Que o medo da solidão se afaste e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância.Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito,e que o seu silêncio me fale cada vez mais.Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba.E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer.Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor a outra metade também.
Oswaldo Montenegro