outubro 31, 2006

Decididamente,

as saudades não são como o clima.
Quando está calor, não conseguimos imaginar como era quando tinhamos frio. Nem prever o que sentiremos quando os termometros baixarem. Da mesma maneira, temos dificuldade em imaginar o que é ter calor ao tiritarmos de frio na paragem do autocarro.
Mas com as saudades é diferente...
Conseguimos senti-las por antecipação, quando ainda temos a pessoa à frente, estamos sentados na cadeira do quarto que vamos deixar ou no banco de jardim que julgamos nunca mais voltar a ver.
Sentimos o mesmo nó na garganta, a mesma sensação de que a vida não tem graça sem aquela pessoa, ou aquela coisa, e todos os outros sintomas que só os poetas a sério conseguem descrever sem serem pirosos.
Há ainda as saudades a posteriori, se possivel até mais esquisitas.
Às vezes, só tenho saudades dos meus filhos quando lhes ouço a voz, os abraço outra vez, lhes passo a mão pelo cabelo.
Ou as saudades que temos lá dentro, mas que só nos apercebemos quando cheiramos determinado perfume ou cruzamos os olhos com alguém que nos lembra outro alguém.
É estranho... mas as saudades são estranhas...
Decididamente, não são como o frio e o calor.

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