Eu sentei e chorei.Conta a lenda que tudo o que cai nas aguas deste rio - as folhas, os insectos, as penas das aves - se transforma nas paredes do seu leito. Ah, quem me dera que eu pudesse arrancar o coração do meu peito e atirá-lo na correnteza, e então não haveria mais dor, nem saudade, nem lembrança.Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei. (........)
Que as minhas lágrimas corram assim para bem longe, para que o meu amor nunca saiba que um dia chorei por ele. Que as minhas lágrimas corram para bem longe, e então eu esquecerei o Rio Piedra, O mosteiro, a igreja, a bruma, os caminhos que percorremos juntos.
Eu esquecerei as estradas, as montanhas e os campos dos meus sonhos- sonhos que eram meus, e que eu não conhecia.
Eu lembro-me do meu instante mágico, daquele momento em que um "sim" e um "não" podem mudar toda a nossa existência. (.......)
-Procure viver. Lembrar é para os velhos- dizia ele.
Talvez o amor nos faça envelhecer antes da hora e nos torne jovens quando a juventude já passou. Mas como não recordar aqueles momentos? Por isso escrevia, para transformar a tristeza em saudade, a solidão em lembrança. Para que, quando acabasse de contar a mim mesma esta história, a pudesse lançar no Piedra-assim me tinha dito a mulher que me acolheu. Para que então - lembrando as palavras de uma santa - as águas pudessem apagar o que o fogo escreveu.
Todas as histórias de amor são iguais.
Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei; Paulo Coelho 1994
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